domingo, 22 de junho de 2008

Ode a um amor que não nasceu

As minhas maos carregam
ainda asperas
a memoria do trabalho
O construir e o talhar
em madeira e terra
dos nossos filhos
de tão frouxo enlace

As minhas maos carregam
a lembranca do toque
que só foi sonhado
Entre a planta e o desenho
se guardam sublimando
e escrevem com luvas emprestadas
as reminiscencias dos outros dias

De terra vermelha
e água preta
esculpiram novo dono
esculpiram o sol
rodante
entre azuis imaginarios
e facas do vento cortante

Afagaram os cabelos
todos os fios
um a um
Arrancaram pela raiz
A flor passada e seca
Debruçaram cheiros verdes e terrestres
entre os sorrisos e os olhos fixos

--

Caminho pelas vias diárias e incertas
hesito
constato
Há uma força pra viver e constatar
sempre

Procuro.
Admitamos!
Não basta ser nem olhos nem mãos
O necessário
O frívolo

Não basta toda a contorçao da estetica,
como um ser com vontade propria,
para se tornar orgânica

Não basta querer o que é possivel
amarrado às cadeias do destino por vieses deterministicos

A paisagem nao é muda
O que os olhos dizem nao sao modos de comunicacao

Os campos e as ruas pretas
me gritam que os olhos nao dizem nada
Os olhos olham!
Os olhos claros e imprecisos
subversivos
resignados ao codigo

Os olhos olham
As maos sentem
Os olhos sentem
As maos sentem por muito tempo
As maos asperas
cegas
que tateam as superficies dos convívios sociais
e das heranças infantis

Os olhos constatam o padrao paterno
que se repete nos desejos
ou nos medos
As maos tampam o que ainda é oprimido
ainda depois de tantos meses
de regras submetidas
subservientes

--

Quero criar laços
ou nós
entre as vidas que hoje
nao se distinguem do meu ser
eu carne, eu folha
eu terra e sol
e folha
que volta a ser terra

Quero criar raízes
longas
fortes
que como mãos sinistras
seguram os pés do que será
um dia
terra a meu lado

Quero ser flores e pólen
que se espalha pequeno e sutil
e preenche todo o universo
habitado das memórias
dos cheiros frutais das minhas ruas
factíveis e certas

Quero ser flor
e fruta
o prazer doce
o mar
a lágrima

--

Vontade de ser
integrar-se
diluir-se
ser
ser

Ser com aquele alguém
que muda e não muda
que é sempre objeto de desejo
que é só tocado em sonhos
beijado e chorado
nas festas de despedidas
com as intermitencias
imanentes
de todos os objetos de amor
os símbolos
os rostos
as máscaras

O engano de felicitar-se
na entorpecida conclusão
que não há de se diluir em nada
nada constatar
senao que duas maos asperas podem se dar
e ser tudo o que basta

2 comentários:

vieira calado disse...

A minha 1ª visita.
Gostei da poesia que aqui vim encontrar.
Cumprimentos

vieira calado disse...

Gostei desta 1ª visita.
Cumprimentos