quarta-feira, 30 de julho de 2008

fragmento (reencontro)

passaram-se muitas vidas, muitos dias, muitas pessoas depois daquela
as lembranças de todos ficaram impressas
cicatrizadas
ou não

a vida seguiu
as lembranças vinham sempre a tona,
como num filme em que só eram mostradas as partes mais bonitas e relevantes,
as cicatrizes maiores, as feridas abertas
ou os brilhos nos olhos e nos cabelos que alguem beijou ou afagou

como num filme que narrava os momentos auto-conscientes
cercados de sentidos
sinestesias
A trilha sonora que tocava
os vapores azuis das ruas
sob céus floridos
tremidos a cada passo
que a música fazia nos pés

um amor
outro amor
profissões não sabidas,
línguas não faladas
livros não lidos
o porvir sempre permeando o presente
acalentando as insatisfações
as ânsias
por mais amor
mais ofício
Ser útil
como dever cívico
humano e
questionável

um amor
o sexto amor, talvez
então foi levada a algum país querido
desconhecido
Esta vida!
Não é mesmo que viajou?
Não aconteceu mesmo o que lhe dera medo
e felicidade antecipada?
Estava ali, diante daquele futuro que fora incerto...
Agora era fato
O tempo lhe trouxera de volta o quarto, talvez quinto amor
Agora talvez pudesse ocupar outra posição

Uma ironia
estava ali,
diante dele
distinta dele
se lembrou dos seus pés sob os ritmos
das mãos
suores
vozes
danças
se lembrou dos poemas escritos
dos enviados, do seu desnudar, revelar
do seu ego
dos recônditos orgulhos
e insatisfações escritas
e entregues
se lembrou dos poemas ditos, sem rima
em forma de dentes e desvios de olhar
Uma timidez tão bonita
interiorana
provinciana
uma timidez tão tola

Que ironia!
não era mais provinciana
estava ali! tão longe de casa
agora era cosmopolita
tinha sido levada a outro país pra falar do seu trabalho

Com mãos trêmulas
o peito vibrante
caminha
dissimulando que o chão lhe dança sob os pés
sorri
ao ensaio de dizer...
mas ele também sorri:
_Obrigado pelo poema.

voltando...

li a ultima postagem e pensei: será que é realmente mais honesta a comunicação sem filtros? ssem o ponderar que temos na escrita? talvez sim... ela tem menos filtros, ela pode ser menos precisa... não sei...ela revela mais fácil... é isso, acho que ela revela mais fácil o que vai por dentro, mesmo tentando o contrário...
Uma conversa em tempo real é cheia de surpresas de reações e de retornos e quando nós somos pegos de surpresa, a esponteneidade responde... podemos ser muito contidos..podemos falar besteira, ser artificiais, principalmente quando nos preocupamos.. a outra pessoa não necessariamente vai entender... mas aquele ali é um lado seu sim... é a expressão do seu lado mascarado e desengonsado...
estou aqui, denovo, dizer o que me vem a mente..sem preparar muito, sem podar muito...
cheia de três pontos...talvez sejam a expressão de alguma reflexão que tenho, sim, antes de dizer...

eu conforme

Isto ainda é um journal, um diário. Eu tenho uma certa vergonha de escrever prosaicamente, de não selecionar, não dar cara de poema.
Acho que é como a mesma vergonha que sinto de sempre dizer o que já foi dito, do clichê. Essa busca pela originalidade. Pra quê?
Mas existem tantas constatações que faço a meu modo e que por algum motivo eu sinto que deveria guardar. Eu sinto muita vontade de sempre me explicar, sempre precisar as coisas. E indissociavelmente uma frustração, pois sei que as palavras não são suficiente pra dizer tudo o que eu penso.
Se o óbvio não fosse dito, o que seria?
As palavras que eu tanto procuram parecem me afogar, tanto que chego a pensar que seria bom, por pelo menos algum momento viver num mundo sem palavras, só me comunicar de outros modos. Sim, ainda me comunicar, mas não pensar de modo organizadao e adequado as palavras, não ter um simbolo para cada sensação. Acho que isso seria próximo de instinto. Não sei. Vou postar isto. Quero me mostrar mais nua, menos selecionada. Não que eu tenha orgulho de tudo o que já postei e nem que eu ache que são fiéis como representação de mim.
Quando releio, não gosto. Acho que é isso. Queria ser mais especial do que retrato com essas linhas mais espontâneas.
fiquei pensando no que disseram sobre a melhor "comunicação" pela escrita...Mentira! melhor apresentação! mostrar o escrito não é comunicar-se honestamente. Não como eu vi fulano fazer. Mas tento agora ser honesta e espero que meus dedos sejam rápidos o suficiente pra captar meus pensamentos, e que isso ocorra em horas sinceras, honestas...nada! em todas as horas, que captem todas de mim...
tenho que ir...

sexta-feira, 11 de julho de 2008

tempo

Eu sinto agora
Toda a dor do universo
Que cabe em uma vida
E todas as dores de todas as vidas que se ligaram a minha

Todas as tristezas dos meus contemporâneos
Dos meus conterrâneos
Que um dia serão
Com eu
Todos mortos
Eu sinto a dor da morte de todas as relações
De todas as risadas
As conversas
Os recalques
As mentiras
Eu sinto a dor de todos os amores frustrados
Em meio dos meus tantos amigos que se amaram
E sem amargaram e se tornaram símbolos e deixaram de ser as pessoas que eram
Para tornarem-se traumas, dores, invejas, sarcasmos

Eu sinto a alegria daqueles momentos, eternamente
Eu sinto os meus pais, os pais dos meus amigos
Sorrindo, recebendo a jovialidade
Emprestando os novos tempos
Eu os sinto morrer como aviso do que nos espera
Eu os sinto chorar de alegria da semente plantada
Tão fresca e acessível
A hora do jantar
Eu os sinto falar
E respondo
E nos amamos
Pois nos amamos a nos mesmos
E amamos o nosso tempo
As salas
Os bares
Os lugares frios e as estações
E as mudanças
O comentar da vida alheia
O desdém e a preocupação
Eu sinto a minha vida
Tão distinta disso
Da minha cidade
Como o cais de pedra
O refugio
Quase-eterno
Do eu que me habita quase inconscientemente

Obrigada
Eu agradeço a vida e aos tempos
Ao acaso
Pois eu vivi estas pessoas
E elas me viveram
E assim nos fizemos
Entrelaçados,
Neste mundo incerto
Talvez finito
Talvez cruelmente finito
Em que uma vez é única
Eu sinto a dor de viver uma vida única
E me lembro das outras vidas
Que são tão como a minha
E que nunca serão intimas de mim, como a minha
Eu sinto a vergonha por elas
O orgulho pela minha
O amor
A dor
O medo de todos os sentimentos se traduzirem em instintos
O medo do não-especial
Do não-etereo
Do não eterno
Então amo, que é o que me resta, como eu prefiro ver