segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Hiroshima, mon amour

Nos olhamos os olhos um do outro
Estes olhinhos infantis que me acalmam
e me despertam sorrisos

Nos olhamos e tateamos um do outro a face
a fim de fixar na retina e na pele das mãos o outro que se revela
Nos olhamos sem medo
O fim é certo
Você vai
e eu fico

Trocaremos mensagens, nos lembraremos
Agora somos parte da vida um do outro
Nos olhamos invadindo e deixando ser invadidos
E sorrimos felizes e tristes
pelo nosso amor de sete dias

"HI-RO-SHI-MA"

Posso fechar os olhos e te ver em preto e branco
gravado dentro de mim, num filme de poucas palavras

Nos olhamos um pouco surpresos por este amor que se revelou sem precedentes
Nos olhamos naturalmente, pois este amor faz sentido
Faz sentido nos amarmos, nos tocarmos e decidirmos ser tão próximos
Faz sentido nos falarmos e sermos quem somos
Eu, que se tenho muito por dentro
sou como um poço
Você
como um edifício
Eu, que carrego sobre os ombros o peso dos proprios ombros que se curvam sobre mim
Você, que é grande e leve. Especial e infantil.
Voce, que me traz medo de, sendo assim tão bom, eu seja muito pior,
muito louca,
muito impura,
muito pequena
Você que me olha como se eu fosse eu
como se eu fosse natural
como se eu te amasse, se você pode me amar

Ainda tem partes de você comigo
pele e cheiro no meu quarto,
na minha casa,
na minha rua.
Ainda poderei te ver antes que parta.
Ainda penso que posso ser leve com você, porque ainda está próximo

Eis que você veio
E em três dias você vai
E eu assisti ao filme, que chamei de filme da minha vida,
e foi prelúdio destes dias
"Oui, c'est mon nom. Ton nom a toi est Nevers"
Abro os olhos e te vejo no meu filme em preto e branco
movendo-se
len
ta
men
te
sobre mim
com estes olhos infantis
"Ton nom est Hiroshima"

domingo, 17 de agosto de 2008

paul celan

Da mão o outono me come sua folha: somos amigos.
Descascamos o tempo das nozes e o ensinamos a andar:
o tempo retorna à casca.

No espelho é domingo,
no sonho se dorme,
a boca não mente.

Meu olho desce ao sexo da amada:
olhamo-nos,
dizemo-nos o obscuro,
amamo-nos como ópio e memória,
dormimos como vinho nas conchas,
como o mar no raio sangrento da lua.

Entrelaçados à janela, olham-nos da rua:
já é tempo de saber!
Tempo da pedra dispor-se a florescer,
de um coração palpitar pelo inquieto,

É tempo do tempo ser... É tempo.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

brainstorm

pedro
amor
homem
meu
não
vida
idas
sonhos
sonhos
visitas
falsas
idas
idas
voltas
pedro
meu
eu
centro
descentro
amor
incerto
nunca
nunca
vida
morte
fim
pedro
longe
perto
sempre
medo
certo
irreversivel
verdade
verdade
crua
eu
amor
impossivel
possivel
ironico
eu
passado
mudancas
amor
tristeza
loucura
penso
penso
penso
loucura
plenitude
fim
certo
nasce
vive
vive
agora
antes
depois
sempre
pedro
vida
minha
agora
volta
aqui
eu
sempre
sempre
eu
constante
presa
fadada

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

o outro

Acho que quando a gente pensa muito sobre alguma coisa, a ideia que fazemos sobre aquilo vai ficando mais sólida, mais arraigada ao nosso cerebro. Vamos fechando as pontas de todos os contornos sobre essa coisa, criando explicações, origens, fazendo ser consistente com alguma lógica aplicada aos dados que temos; que podem ser poucos.
Dai o perigo de se pensar muito em alguem, principalmente se temos poucas informaços sobre essa pessoa. Esse é o construir do objeto que nao é o real, é a imagem distorcida daquela pessoa que nunca vamos conhecer direito (pode ser que nem ela própria).
Mas se sabemos um pouquinho e vamos juntando elementos sobre ela; e organizando isso na nossa cabeça de acordo com a nossa lógica e nossos esquemas (os unicos parametros que temos sao os nossos),criamos um outro ser dentro de nos, que pode ser muito distinto do real. E os enganos, os mau-julgamentos, vão sendo ampliados. É como ir montando um edifício: só podemos botar uma peça nova sobre a que já estava lá (ou quebrar alguma parte pra que caiba outra, o que da muito mais trabalho). As coisas vao ficando mais sólidas, maiores, mais pesadas. Fica cada vez mais dificil desmontar o que ja foi construido.
Se, fortuitamente, podemos nos aproximar da pessoa real e esta se nos apresenta diferente do edificio que já montamos, montamos outro entao. Tentamos derrubar o anterior, ou deixar ele de lado, mas ja ficou aquela memoria da prévia construção, com nossos pre-conceitos e romantismos, com mais de nós mesmos impressos ali, como arquitetos das pessoas que preferimos ou conseguimos fazer, sendo as pessoas que somos.
E não é, no final das contas, o nosso mundo, a nossa obra?

terça-feira, 5 de agosto de 2008

preto e branco

sonhei que estava em preto e branco
como num filme, bem bonito, bem nítido
como aqueles atuais, cinzas pela intenção estética do diretor

eu era bonita, tinha os cabelos longos e lisos
estavam presos
um tom de pele vivo, um cinza vivo

os lábios coloridos
as sobrancelhas marcadas, simétricas
como das atrizes tão bonitas que meus diretores preferidos escolhem

eu era bela, forte e cinza
me olhava no espelho e desenhava a sobrancelha
que borrou

depois o filme era colorido mesmo
já tinha os traumas e elementos do último dia
não era tão bonito
talvez nem fosse depois
essa coisa de os sonhos não terem muita ordem
se tem, não importa, pois se não nos lembramos da ordem
é como se não tivesse... eu acho

acho que o sonho me traduz a vida
como quero
como num filme
não por isso uma vida pouco realista
mas uma vida bela
olhada do ângulo certo
com sorrisos focados obliquamente
e vermelhos tão vermelhos quanto verdes
tão cinzas quanto os cinzas

quero uma vida simétrica
com desfechos
com partes consistentes
ironias e contrastes
uma vida com intenção

dias que se sucedem e retornam
a velhice antes da juventude
quero viver todos os tempos
saber da rua onde ainda não andei
deixar o amor pelo amor
sofrer antes da dor

quero ver sem olhar
ser onisciente
provocar
dançar como se não houvesse música
caminhar com ritmo
respirar com os temas
suspirar com o que passou despercebido

se já velha assim, eu sei do irremediável
volto pra meus vinteepoucosanos
já sei das perdas
da morte
da doença
dos amigos e amores
dos sangues tão sangues como os vinhos
dos partos como anúncios das partidas

dos rios que correm tão verdes como os cinzas
tão cinzas como os rios
a terra tão terra quanto a folha
a neve tão branca quanto ainda não fora vista


fiquei satisfeita com
as manhãs
as noites
e o correr das horas entre as horas

volto e passo tudo em negativos
em preto e branco
e cinza
sem monotonia
cinza de contrastes
realces
cinza vivo
escuro
branco

as horas entre as horas
dentro de mim
agora
as horas entre as horas
todos os dias
entre meu olhares
vivendo antes
por segundos antes planejados
olhando a procura
do especial
na velocidade certa
em sequencias ideais
eu, em preto e branco
vivo
expectador
de mim