sexta-feira, 11 de julho de 2008

tempo

Eu sinto agora
Toda a dor do universo
Que cabe em uma vida
E todas as dores de todas as vidas que se ligaram a minha

Todas as tristezas dos meus contemporâneos
Dos meus conterrâneos
Que um dia serão
Com eu
Todos mortos
Eu sinto a dor da morte de todas as relações
De todas as risadas
As conversas
Os recalques
As mentiras
Eu sinto a dor de todos os amores frustrados
Em meio dos meus tantos amigos que se amaram
E sem amargaram e se tornaram símbolos e deixaram de ser as pessoas que eram
Para tornarem-se traumas, dores, invejas, sarcasmos

Eu sinto a alegria daqueles momentos, eternamente
Eu sinto os meus pais, os pais dos meus amigos
Sorrindo, recebendo a jovialidade
Emprestando os novos tempos
Eu os sinto morrer como aviso do que nos espera
Eu os sinto chorar de alegria da semente plantada
Tão fresca e acessível
A hora do jantar
Eu os sinto falar
E respondo
E nos amamos
Pois nos amamos a nos mesmos
E amamos o nosso tempo
As salas
Os bares
Os lugares frios e as estações
E as mudanças
O comentar da vida alheia
O desdém e a preocupação
Eu sinto a minha vida
Tão distinta disso
Da minha cidade
Como o cais de pedra
O refugio
Quase-eterno
Do eu que me habita quase inconscientemente

Obrigada
Eu agradeço a vida e aos tempos
Ao acaso
Pois eu vivi estas pessoas
E elas me viveram
E assim nos fizemos
Entrelaçados,
Neste mundo incerto
Talvez finito
Talvez cruelmente finito
Em que uma vez é única
Eu sinto a dor de viver uma vida única
E me lembro das outras vidas
Que são tão como a minha
E que nunca serão intimas de mim, como a minha
Eu sinto a vergonha por elas
O orgulho pela minha
O amor
A dor
O medo de todos os sentimentos se traduzirem em instintos
O medo do não-especial
Do não-etereo
Do não eterno
Então amo, que é o que me resta, como eu prefiro ver

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