quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Fiquei um pouco muda
um pouco ouca
um pouco

confusa do mundo
dolorida do mundo
um pouco de palavra ainda se desata dos meus nós

fiquei pouco

sei muito pouco
o mundo é triste

domingo, 27 de maio de 2012

Thomas

Em voce não moram as palavras que eu digo
voce não reflete

Voce é esta pintura que não sei quão funda
um rio azul
um barco
que não sei pra onde vai
e que não sei se me carrega
it feels like night
this is just my room
and some fluorescence

projections of the city in my curtain

smoked dirty buildings
neon moth
deep in my ears
smooth echoes of synthetic music

sábado, 12 de maio de 2012

um oceano

Quero acreditar que mergulhar no fundo de mim mesma seja real
e faze-lo
o unico real
isso é feliz? o que mais resta? 
fora não há nada
ninguém
nunca
porque fora não nos pertence
porque não existe
só há milhões de dentros

mas ainda quero o que acho ser feliz
poderia sacrificar a realidade
como todos
animais entorpecidos que somos

dentro de mim é mais real?
ao menos mais constante
ao menos vagamente conhecido
como não é fora
esse oceano de incertezas 
e de gente incerta 
e de gente que tenta 
até
se dar as mãos e nadar juntos
mas ondas tão grandes

para que ilha vou em que não moras?

vou na certa
e vais para sua
porque nadar junto é mais difícil

terça-feira, 8 de maio de 2012

Tem esse bonde que eu não peguei
 L'hiver nous irons dans ce petit wagon rose

 é quase verão
 chamamos o sol
 enviamo-lhe uma carta
 um telegrama
 breve e exato
 como nota de falecimento

 o pobre dignissimo

 vai

domingo, 15 de abril de 2012

26 fevereiro 2012

participastes da minha melancolia no domingo,
sem saber.
do meu perguntar da vida e de por que? por que?
tem um homem no meu quarto
um homem branco
de costas largas

nos olhamos
eu sinto que seus olhos nao sabem
os meus sabem tudo
mas tantos reflexos no caminho

agora sim
dividimos algo
dividimos a nostalgia dolorida do domingo
a nostalgia atemporal
a nostalgia que virá

existe um homem no meu quarto
na minha mesa
na minha cama

quem somos nós que decidimos isso?
o que foi decidido por nós?
por que sofres?
por que sofres agora que eu te disse que deves sofrer?


no domingo de manhã
as sirenes tocaram
alarmes, uma balburdia
um fogo bem na esquina, ou só alarde
a qualquer momento de nossas vidas, nossa casa em chamas pode se consumir
num domingo qualquer
domingos são os dias preferenciais dos incendios desavisados
ou dos alardes
ou dos gritos

eu sei, eu morrerei num domingo

eu sei, se me deixares, lembrarei de ti com dor, num fim de tarde de domingo
numa hora sem cor
sob um céu pálido em qualquer hemisferio

meu amor, meu amor,
posso repetir muitas vezes
posso ve-lo muitas vezes como se fosses,

de repente,

este homem no meu quarto


alguns domingos atras, nao eras
agora meus dias de alegria e dor sao reservados a ti
nos outros todos, nao ha nada
nos outros todos, só essa vida que temos que ter,
essas coisas que criaram e que alimentamos,
o trabalho, e dizer bom dia

meu amor, meu amor
nos amamos quando sofremos ao imaginar a morte do outro
nos amamos porque tememos,
porque amor é medo
porque nao há paz

nas horas sem cor
nos amamos inquietos
entorpecemo-nos
esquecemo-nos
somos este homem e esta mulher neste quarto
mudos
em preto e branco.

do teto nos vejo
um homem e uma mulher
um filme sem começo

nas janelas do hotel do outro lado da rua há alguem
de quilometros de mim,
anos,
horas
há alguem no quarto do hotel do outro lado da rua
temos janelas brancas que se olham
e o homem que aqui sentado estava
nos seus vidros
se reflete infinito
entendi
sou essencialmente triste
não choro por cair

caio para chorar