passaram-se muitas vidas, muitos dias, muitas pessoas depois daquela
as lembranças de todos ficaram impressas
cicatrizadas
ou não
a vida seguiu
as lembranças vinham sempre a tona,
como num filme em que só eram mostradas as partes mais bonitas e relevantes,
as cicatrizes maiores, as feridas abertas
ou os brilhos nos olhos e nos cabelos que alguem beijou ou afagou
como num filme que narrava os momentos auto-conscientes
cercados de sentidos
sinestesias
A trilha sonora que tocava
os vapores azuis das ruas
sob céus floridos
tremidos a cada passo
que a música fazia nos pés
um amor
outro amor
profissões não sabidas,
línguas não faladas
livros não lidos
o porvir sempre permeando o presente
acalentando as insatisfações
as ânsias
por mais amor
mais ofício
Ser útil
como dever cívico
humano e
questionável
um amor
o sexto amor, talvez
então foi levada a algum país querido
desconhecido
Esta vida!
Não é mesmo que viajou?
Não aconteceu mesmo o que lhe dera medo
e felicidade antecipada?
Estava ali, diante daquele futuro que fora incerto...
Agora era fato
O tempo lhe trouxera de volta o quarto, talvez quinto amor
Agora talvez pudesse ocupar outra posição
Uma ironia
estava ali,
diante dele
distinta dele
se lembrou dos seus pés sob os ritmos
das mãos
suores
vozes
danças
se lembrou dos poemas escritos
dos enviados, do seu desnudar, revelar
do seu ego
dos recônditos orgulhos
e insatisfações escritas
e entregues
se lembrou dos poemas ditos, sem rima
em forma de dentes e desvios de olhar
Uma timidez tão bonita
interiorana
provinciana
uma timidez tão tola
Que ironia!
não era mais provinciana
estava ali! tão longe de casa
agora era cosmopolita
tinha sido levada a outro país pra falar do seu trabalho
Com mãos trêmulas
o peito vibrante
caminha
dissimulando que o chão lhe dança sob os pés
sorri
ao ensaio de dizer...
mas ele também sorri:
_Obrigado pelo poema.
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